A eterna crise de identidade crioula

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Cabo Verde como todos nós “berdianos” sabemos, não se encontra localizado nem no continente berço-África, nem no velho mundo-Europa e ainda menos nas terras do açúcar e do “Tio Sam”, Américasomos dez ilhas perdidas no meio do oceano Atlântico, isolados num canto do mundo – que as ondas embalam, maltratam e abraçam.

Somos o fruto da colonização e filhos da escravatura, fomos nutridos pelos nossos ancestrais, filhos de Camões e vendidos por moedas de prata, entre as terras do açúcar e do algodão,e enquanto Europeus conquistavam a gloria, promoviam as diferenças entre escuros e claros, chamavam pretos aos primeiros e aos segundos mulatos, e quando a escravatura não dava mais lucro, deixaram os pretos em África com preto de luto, e na Guiné-Bissau-Cabo Verde mulatos e pretos de estatuto.

A luta armada durava há já dez anos, a independência tardava a chegar, alguns deixaram-se seduzir pelas promessas de autonomia, segundo declarações da viúva do grande libertador: “Eles receberam a promessa de que, se conseguissem raptar e entregar os principais dirigentes do PAIGC, o governo colonialista estaria de acordo em entrar em negociações com eles – mas sem PAIGC, sem Cabo Verde. Só a Guiné, com uma certa autonomia, sob a bandeira portuguesa. E eles seriam os dirigentes da Guiné.”

Amílcar Cabral morto, família e o povo de luto – Lisboa de novo com estatuto. Mas a obra do artista continuava viva e era uma outra fase da luta, com armamentos sofisticados vindas de fontes soviéticas extremamente duvidosas, a armada sem sinais de desistência absoluta, tornou a independência uma certeza absoluta! VIVA!!!

Cabo Verde e Guiné-Bissau ,um modelo, dois países, um partido… uma união sem sucesso, dando origem a dois países e dois partidos.
Combatentes do PAIGC regressaram dos matos da Guiné, formaram o PAICV e disseram que todos somos africanos – Choque cultural entre os “Combatentes da Pátria” e o povo a muito tempo afectado pela “síndrome de Estocolmo”. Regime autoritário e de intolerância, reinavam nas dez ilhas do atlântico, quem não estava de acordo era perseguido e preso.

Anos 90 época de muita agitação nas ilhas, de revolucionários iluminados, acordados do longo sono imposto pelo partido único.
A 14 de Março de 1990 nascia um novo partido-Movimento para a Democracia(MPD), o partido da ventoinha da esperança, que viria vencer as primeiras eleições livres e democráticas em 1991, pondo fim ao regime do partido único, imposto pelo PAICV.

Movimento para Democracia, o partido que defendia e ainda defende o livre comércio e a politica económica aberta ou totalmente dependente do exterior!?…
De 1991 a 2001, alguns progressos e retrocessos, entre empresas falidas e enriquecimentos ilícitos, termina o primeiro regime democrático de Cabo Verde.


Ano 2000, o partido da oposição, PAICV, dá inicio a uma nova fase, com um novo líder, carismático, inteligente, entusiasta, um autêntico mestre na arte da bajulação, filho da cidade do planalto-Assomada. No dia 14 de Janeiro de 2001, o partido outrora na oposição sobe ao poder e José Maria Neves assume o cargo de primeiro ministro, até os dias de hoje.

Hoje temos barragens, aeroportos/portos, hotéis de luxo, hospitais, discotecas, turismo sexual, trafico de droga ambulante feito pelo ar ,terra e mar, vendemos as nossas praias, as nossas ilhas e ultimamente até um ilhéu, pois Cabo Verde é nosso mas na hora do lucro o poder fala mais alto. Ocidente domina a nossa economia e a nossa educação, criamos crianças cheias de preconceitos , nutrimos jovens apologistas à descriminação e damos origem a adultos racistas e sem identidade!

A IDENTIDADE CABO-VERDIANA

É  ela, aquela que nos define, nos contextualiza dentro deste mundo. É ela, aquela que na escola primária não é ensinada, porque o professor quer que nós sejamos autênticos Camões, de cabelos finos e penteados, sem o cabelo “bedju” ,que nos define amostrados, em que o “clarinho” da sala é aquele que a professora mais adora, e o mais carenciado é o menos inteligente e o mais malcriado.

É ela, aquela que vai desde da música “terra-terra”, à pintura, à escultura, à cultura, aos livros dos nossos “claridosos”. É ela, finita mas infinita na sua insularidade, é ela, aquela que vem desde dos nossos ancestrais até aos nossos pais, é ela, aquela que nos torna cabo-verdianos independentes sem deixar de sermos dependentes, é ela, aquela que nos dias de hoje se encontra nos cafés, em dia de jogo, do Benfica de Camões.

É ela, aquela que se faz presente no canto da morna, no corpo das raparigas morenas, nas coxas ágeis das nossas pretas, é ela, aquela que em todos os domingos, aprendemos na igreja e rezamos pelo nosso pai branco… É ela, aquela que os nossos jovens mudaram-lhe o nome para “Sindrome de Swaagdeficiência Adiquirida”… É ela, aquela que oferece a nossa juventude, festa e bebida e depois chama-lhe perdida… É ela, aquela que faz as nossas crioulas que não são brancas, a adorarem parece-lo… É ela, aquela que transforma penteados afro em extensões para cabelo… É ela, aquela que produz, jovens de ginásio que não usam camisinha, e depois dizem que a “SIDA” é um problema, mas sabemos que o comportamento é o culpado… É ela, aquela que é nossa mas não é nossa… É ela, aquela de vândalos e marginais, os mesmos que enchem os comícios em campanhas eleitorais… É ela, aquela que quer mudança, mas tem medo dela…É ela, aquela que vive no mar cercando, prendendo, desgastando e abraçando as nossas ilhas.

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