Rudy um talento com muita margem de progressão

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Treinar um clube em Cabo Verde e devido a vários factores bem reais apenas faz sentido, na minha opinião, se tiver como uma das metas iniciais potenciar jovens.

Existe muito talento para a prática do futebol e cedo começam a emergir junto dos mais velhos devido ao facto da inexistência de campeonatos jovens. Podemos ter jovens com 15, 16, 17 anos a competirem em campeonatos seniores e isso é uma realidade bem assente nos vários campeonatos de 1ª e 2ª Divisão.

Quando cheguei para treinar havia 4 ou 5 jogadores referenciados como talentos que poderiam, seguindo um trabalho criterioso, dando-lhes oportunidades de competir, evoluir durante a época e assim seguirem para o futebol profissional europeu.

Atendendo á idade/qualidade eles eram fáceis de identificar mas como tantos outros eram apenas mais uns. Tinha ao meu dispor no plantel jogadores nessas condições, jovens, mas sem grandes feitos até ao momento e historiais que em nada sobressaiam perante a larga maioria. Havia um caminho, jogar olhos nos olhos com cada adversário e trabalhar diariamente com um sentido de vitória permanente. Todos no final do campeonato teríamos que sair de cabeça erguida e conscientes que fizemos o nosso.

O Rudy era um jovem talento logo identificado. Tinha feito já algumas épocas nos seniores apesar da idade jovem, 18 anos, mas nunca teve posição fixa nem destaque assinalável. Nas minhas muitas conversas, com várias pessoas, as opiniões divergiam. Uns diziam que jogava na esquerda, outros na direita, mais á frente, mais atrás, etc. Portanto, estava perante um miúdo com talento, jovem… Agora tinha que ser eu através do trabalho, desenvolver uma forma de potenciar um jogador perante um colectivo como principal objectivo.

A idade e personalidade própria transportavam nele uma rebeldia que sobressaia mais a cada dia. Era notório a facilidade de aprendizagem e o nível de evolução e não tinha medo do risco e de assumir o jogo. Um jovem com muita vontade que se distinguia na entrega em cada lance disputado. Forte de trás para a frente quando ganha espaço para ir no um contra um e finalizador. Marcou 19 golos em todo o trajecto. Foi utilizado essencialmente como extremo. No primeiro mês de treinos contactei logo vários agentes desportivos no âmbito de dar a conhecer a qualidade do Rudy.

Não havia registos de vídeo, era apenas a minha palavra a ter em conta, logo sem grande sucesso. Em idade júnior, pensei que tinha potencial para jogar nas melhores equipas em Portugal do seu escalão etário e estava disposto a perder o jogador com vista o seu desenvolvimento como jogador. Ninguém mostrou interesse no jovem.

Uma época de sonho num clube sem títulos. Conseguimos o tão desejado título em 13 anos de história e levou a que muitos jogadores ficassem conhecidos e cobiçados pela natural época realizada. O Rudy foi destaque natural daquela caminhada pois foi chamado á selecção nacional A de Cabo-Verde, (há largos anos que um jogador da Ilha do Fogo não era chamado á selecção A), considerado o melhor jogador da Ilha do Fogo e então começaram os interesses pelos seus direitos.

Foi a empresa Blue Private Investimentos que lhe deu a oportunidade de experimentar o futebol europeu e apostou nele para uma experiencia. Uma empresa que desconhecia, mas que na minha chegada a Portugal tive oportunidade de conhecer o seu responsável. Fico muito contente por acreditarem no jogador e estou ciente que o trabalho realizado ao longo da época o preparou para a exigência do futebol na Europa.

O Rudy pode chegar onde ele desejar só necessita ter oportunidade porque quando lhe derem essa oportunidade ele não se vai esconder nem intimidar. Ele tem qualidade suficiente para qualquer desafio. Nunca duvidei e não duvido da sua qualidade enquanto jogador e enquanto pessoa. Tem que continuar a trabalhar e ter a paixão pelo futebol que sempre transmitiu quando trabalhamos juntos. Desejo-lhe que seja feliz e que este seja apenas mais um passo.

 

Joel de Castro

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