O Fundo Monetário Internacional reviu em baixa a previsão de crescimento para a África subsaariana, estimando agora um crescimento de 3,6% e 3,7% neste e no próximo ano, com a inflação a subir para 14,4%.

“Na África subsaariana, a perspetiva de crescimento é ligeiramente pior que a previsão de julho, com um declínio, de 4,7% em 2021, para 3,6% e 3,7% em 2022 e 2023, respetivamente, o que representa revisões em baixa de 0,2 e 03 pontos percentuais”, lê-se no relatório sobre as Previsões Económicas Mundiais, hoje divulgado em Washington no âmbito dos Encontros Anuais do FMI e do Banco Mundial.

Esta revisão em baixa “reflete o crescimento mais baixo dos parceiros comerciais, as condições financeiras e monetárias mais restritivas e uma mudança negativa nos termos do comércio das matérias-primas”, acrescentam os economistas do FMI, que estimam um crescimento mundial de 3,2% este ano, menos 0,2 pontos percentuais que a previsão de julho, e um abrandamento para 2,7% em 2023.

Na parte do relatório sobre a África subsaariana, o FMI admite que houve uma “grande revisão” da previsão de subida dos preços, estimando que a inflação aumente de 11,1%, no ano passado, para 14,4% este ano, o que representa mais dois pontos percentuais que a previsão de julho.

Esta mudança é explicada essencialmente com o agravamento das condições económicas mundiais, nomeadamente o impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia e as consequências para o comércio de matérias-primas alimentares no continente africano.

“No geral, a inflação internacional aumentou, devido a aumentos nos preços da energia e dos alimentos para os consumidores, com a guerra a impulsionar as pressões inflacionistas”, lê-se no relatório, que aponta que a região da África subsaariana está particularmente exposta a esta evolução negativa.

“Os países de baixo rendimento onde os cidadãos já estavam a sofrer de má nutrição e excessiva mortalidade antes da guerra sofreram um impacto particularmente severo, com efeitos especialmente sérios na África subsaariana, onde os alimentos representam 40% da cesta básica e o efeito de contágio dos preços globais para os preços alimentares é relativamente alto, nos 30%”, aponta o FMI.

A subida dos preços levou os bancos centrais a nível mundial a aumentarem as taxas de juro, o que no caso dos países africanos tem um efeito duplamente negativo, já que a maior parte da dívida externa é emitida em dólares, tornando-a automaticamente mais cara em caso de aumento das taxas de juro por parte dos bancos centrais.

“Isto também fez aumentar os ‘spreads’ – a diferença entre os juros da dívida pública emitida em dólares ou euros destas economias de menor rendimento, e os juros dos EUA ou Alemanha -; na África subsaariana, a diferença dos ‘spreads’ para mais de dois terços dos títulos de dívida soberana ultrapassou o nível de 700 pontos base em agosto de 2022, significativamente mais que há um ano”, alerta o FMI.

O aumento desta diferença entre o que pagam os EUA ou a Alemanha para emitir dívida, e o que os investidores exigem aos países africanos para comprar dívida pública, tem levado muitos países africanos a defenderem uma realocação dos Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês), como forma de contornar a dificuldade de recorrer ao mercado financeiro internacional para financiar o desenvolvimento das suas economias.

Por: Lusa