Ativistas cabo-verdianos criaram uma associação da língua materna, cuja assembleia constitutiva acontece hoje, na Praia, esperando ter “voz cada vez mais ativa” e impulsionar a “mudança” de política linguística no país.
 

ideia para a criação da Associação da Língua Materna Cabo-verdiana (ALMA-CV) surgiu após uma petição lançada em novembro do ano passado, assinada por mais de 200 personalidades, para a mudança da política linguística no país, elevando o crioulo a estatuto de língua nacional, tal como o português.

“Depois dessa dinâmica da petição, entendemos que deveríamos formalizar o grupo, criando uma associação para dar personalidade legal e jurídica ao movimento e também para podermos continuar a fazer mais opções em prol da língua cabo-verdiana, da sua valorização”, disse à Lusa Karina Moreira, uma das promotoras da petição e agora também da associação.

Um ano depois, os promotores vão constituir uma associação, em que durante a assembleia, com a presença de mais de 40 pessoas, vão ser apresentados e debatidos os estatutos e eleitos os órgãos nacionais, para depois ser registada legalmente.

Com este novo passo, os promotores pretendem ter uma “voz cada vez mais ativa” na temática linguística no país e impulsionar a “mudança de política linguística”.

“Queremos ser uma organização que pode contribuir, que pode dar pareceres, que pode trabalhar juntamente com as autoridades que têm poder de decisão, na questão linguística nacional”, manifestou a linguista e professora universitária.

“Não existe uma política linguística em Cabo Verde, não há essa definição clara do que é que se quer para as nossas duas línguas, então é isso que é preciso fazer”, sugeriu a mesma fonte, uma ativista da língua materna cabo-verdiana (o crioulo).

Enquanto em outros países, bilingues ou trilíngues, existem políticas claras e definidas sobre as línguas, nomeadamente o ensino, Karina Moreira notou que em Cabo Verde está sempre numa “situação híbrida e indefinida”, que considera não ser boa nem para o português nem para o crioulo.

Neste sentido, considerou que a oficialização do crioulo é uma das “necessidades mais prementes” e outras das batalhas da associação, explicando que só a partir daí é que se poderá legislar, conceder verbas e tomar outras medidas para a sua valorização e ensino.

O artigo 9.º da Constituição da República de Cabo Verde, de 1992, define apenas o português como língua oficial, mas também prevê que o Estado deve promover “as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa”.

O ex-Presidente de Cabo Verde Jorge Carlos Fonseca instou em fevereiro de 2020 a que se acelerem os mecanismos para concretizar o que está previsto na lei magna, numa alusão à oficialização do crioulo cabo-verdiano como língua oficial do país.

No seu discurso de tomada de posse, em 09 de novembro de 2021, alternado entre português e crioulo, o atual chefe de Estado, José Maria Neves, prometeu estar “na linha da frente” do combate para a “oficialização plena” da língua cabo-verdiana.

Em fevereiro de 2020, o ministro da Cultura de Cabo Verde, Abraão Vicente, assumiu “toda a abertura” do Governo e do partido que o sustenta (MpD) para o debate sobre uma revisão constitucional que inclua o crioulo como língua oficial, a par do português.

Por: Lusa