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Empresa Clearview AI arquiva milhares de milhões de fotografias das redes sociais de utilizadores

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A Clearview AI, uma empresa de que usa a tecnologia de reconhecimento facial, alega ter um banco de dados com mais de três mil milhões de fotografias retiradas de sites e redes sociais. O CEO, Hoan Ton-That, afirma ter criado a empresa com “as melhores intenções” e que a tecnologia já foi usada para resolver crimes e “salvar crianças”.

A empresa de tecnologia norte-americana Clearview AI tem sido alvo de uma grande discussão, devido ao enorme banco de dados que possui. A empresa garante ter retirado mais de três mil milhões de fotografias da internet, incluindo plataformas como o Facebook, Instagram, Twitter e YouTube.
 
Hoan Ton-That, um dos fundadores da empresa e atual CEO, afirmou, em entrevista à CNN Business que, mesmo depois de os utilizadores excluírem as fotografias ou tornarem as suas contas privadas, as suas fotografias permanecem no banco de dados.
 
A Clearview AI vende o seu banco de dados a agências policiais, para que se possa combinar rostos desconhecidos com outras imagens. O departamento da Polícia de Chicago está a pagar 50 mil dólares por uma licença de dois anos para usar a tecnologia, confirmou um porta-voz da polícia.
A tecnologia consegue encontrar fotografias e reconhecer o rosto de um indivíduo em qualquer sítio, onde ela esteja publicada. Desde redes sociais a pequenos sites locais.
 
Ton-That explicou que o sistema de reconhecimento facial da Clearview AI consegue encontrar fotografias de utilizadores, mesmo que as suas contas sejam privadas e, supostamente, apenas os seus seguidores tenham acesso a elas. Se uma conta, em algum momento foi pública, as fotografias estão na base de dados, garante o CEO da empresa.
 
Além da polícia de Chicago, Hoan Ton-That afirma que existem mais de 600 agências policiais nos Estados Unidos e no Canadá a usar a ferramenta de reconhecimento facial. Contudo, o empresário não especificou quantos clientes estão a usar a ferramenta gratuitamente, como teste, e quantos estão a pagar pelo seu uso.
 
Para identificar suspeitos, o software consulta a sua base de dados para verificar se existem correspondências, mostrando também os endereços das páginas de web onde se encontram as imagens do indivíduo. A tecnologia consegue identificar alguém, mesmo que a sua cara não seja completamente visível.
 
A empresa de tecnologia afirma que existem vários bancos a usar o software para procederem a investigações de fraude fiscal.
 
Ton-That garante que o Clearview tem 99 por cento de precisão e não gera erros de étnicos ou raciais – um problema que tem sido apontado a outras empresas fornecedoras do mesmo tipo de tecnologia.
Resolução de crimes

Apesar da polémica que envolve a empresa, várias agências policiais relatam casos em que, alegam, o uso da ferramenta foi crucial e eficaz.
 
A polícia de Nova Jérsia usou o Clearview para investigar uma rede de pedofilia. Através do uso da ferramenta, a polícia conseguiu identificar um homem, antes de ele aparecer, no que acreditava ser uma reunião com uma criança.
 
De acordo com o procurador-geral daquele Estado norte-americano, Gurbir Grewal, o Clearview ajudou a polícia a investigar os antecedentes do homem e determinar se era possível que estivesse armado, refere a CNN Business.
 
Embora considere que a ferramenta teve um papel muito importante na resolução do caso, Grewal suspendeu a sua utilização, depois de perceber como realmente funcionava – Grewal afirmou ter ficado “perturbado” e considera que tal ferramenta só pode ser usada depois de uma revisão e de regulamentação.
 
“Eu fiquei bastante preocupado com o modo como a Clearview AI acumulou as informações no seu banco de dados. Estou preocupado com as medidas de privacidade de dados e segurança adotadas”, declarou o procurador-geral de Nova Jersey, citado pela CNN.

Desistência das plataformas

Depois de a empresa afirmar que colecionava as imagens das principais de redes sociais e de vários tipos de sitesdiferentes plataformas desistiram do uso do Clearview, por considerarem que a recolha de fotografias e armazenamento das mesmas é “contra as políticas das principais redes sociais.
 
O Facebook, o Twitter e o YouTube estão entre as plataformas que desistiram do Clearview.
Ton-That afirma não estar preocupado com a desistência, uma vez que essas empresas não têm controlo sobre o que acontece com os dados e fotografias, depois de eles serem colocados online.
 
“Garantir que alguém realmente cumpre a carta de cessação e desistência quando se trata de dados é essencialmente impossível”, refere Hoan Ton-That, citado pela CNN. O CEO afirma que as imagens podem ser copiadas repetidamente e armazenadas em vários computadores e servidores em diferentes locais do mundo.
 
Hoan Ton-That defende que a sua tecnologia e os seus métodos de coleção de dados fazem parte da tecnologia do século XXI.
 
O Twitter exigiu que a Clearview AI exclua todos os dados que colecionou do seu site e o YouTube declarou que os seus termos e políticas “proíbem explicitamente o armazenamento de dos que podem ser usados para identificar uma pessoa”.
Processos Judiciais
Os Estados norte-americanos do Illinois e da Virginia entraram com uma ação judicial contra a empresa e várias entidades pediram para que fosse criada uma legislação para que se controle este tipo de tecnologia.
 
Ton-That declara não estar muito preocupado com os processos judiciais, uma vez que tem confiança na sua tecnologia e garante que o seu uso deve ser visto como uma ajuda e não como um problema.
 
O CEO afirma que a sua empresa tem o direito de usar fotografias publicadas na internet, comparando o seu software com o motor de busca Google e de outros mecanismos de pesquisa existentes.
 
A aplicação não está disponível para o uso do público. Uma investigação do jornal norte-americano The New York Times revelou que a empresa está a desenvolver um protótipo de óculos de realidade aumentada, que vai usar o sistema de reconhecimento facial, criado para que se possa identificar instantaneamente um indivíduo.
 
O Clearview AI não é completamente novidade. Em 2018, documentos obtidos pela União das Liberdades Civis Norte-Americanas divulgaram que a Amazon estava a fornecer o seu sistema de reconhecimento facial à polícia dos Estados de Oregon e da Flórida.
Por: RTP