Especialistas cabo-verdianos defenderam hoje a paridade, a padronização e uso em vários meios para a urgência na oficialização da língua de Cabo Verde, o crioulo, considerando que só assim terá mais reconhecimento e investimentos.

“Eu sempre digo aos políticos, com respeito e com humildade, a língua cabo-verdiana é como se vocês tivessem um filho, vosso sangue, que não tenham registado”, afirmou a linguista Augusta Évora, uma das oradoras num colóquio sobre a língua materna, organizado pela Presidência da República de Cabo Vede, na cidade da Praia.

O evento serviu para assinalar o Dia Mundial da Língua Materna, numa altura em que se intensifica o debate sobre a oficialização do crioulo, a par do português.

Fazendo a analogia, Augusta Évora, mais conhecida por Mana Guta e que abordou a produção literária em crioulo cabo-verdiano, disse que falta apenas o registo desta língua como oficial.

“O cabo-verdiano não corre risco de extinção, mas corre risco de não ser prestigiado, e a oficialização traz esse prestígio legal, e poderá abrir margem, abrir oportunidades para mais investimentos”, perspetivou a professora universitária e escritora, dizendo mesmo que se pode fazer isso de forma faseada.

“Primeiro, registamos o filho, o registo deve ser urgente”, defendeu a especialista, para quem a base para a oficialização do crioulo já está sólida, tendo em conta a “imensidão” de trabalhos científicos e a vontade de fazer por parte dos cidadãos.

Para o linguista Manuel Veiga, uma das condições para o país atingir a paridade do crioulo com o português é a introdução da língua cabo-verdiana no ensino, tendo-se congratulado com o anúncio do ministro da Educação do início no 10.º ano de escolaridade a partir do próximo ano.

Manuel Veiga, antigo ministro da Cultura, um dos defensores e estudiosos do crioulo, defendeu igualmente o uso generalizado desta língua materna na administração pública, nas câmaras municipais, na comunicação social.

“Estamos a padronizar a escrita, mas estamos a padronizar a língua também”, afirmou o linguista, para quem é preciso a “mobilidade da língua”, para a prática entrar no hábito das pessoas.

Relativamente às variantes do crioulo em Cabo Verde em praticamente cada ilha, considerou que isso é “um bem”, embora isso meta medo a muita gente.

Para Manuel Veiga, o crioulo já está praticamente oficializado em Cabo Verde, entendendo que falta apenas criar as condições para essa paridade com o português. “Há que explicitar o que está na Constituição”, advogou.

A Constituição da República define o português como única língua oficial, mas também prevê que o Estado deve “promover as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa”.

O colóquio contou ainda com a participação de outros especialistas residentes no país e na diáspora, para partilhar conhecimentos científicos e experiências diversas de ensino sobre a língua cabo-verdiana.

A promoção da língua materna é um dos grandes desígnios assumidos pelo Presidente da República, Maria Neves, que no seu discurso de tomada de posse, em 09 de novembro, alternou entre crioulo e português.

Em todo o país, são várias as atividades durante esta semana para assinalar o dia da língua materna, entre elas o II ciclo de conferências na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) e uma conversa aberta organizada pela Biblioteca Nacional, na cidade da Praia.

O Dia Mundial da Língua Materna, que se assinala hoje, foi instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e em Cabo Verde a língua crioula é classificada como Património Imaterial Nacional.