Intervenção na Cabo Verde Airlines é “inevitável” e avançará em breve

208

O ministro dos Transportes cabo-verdiano, Carlos Santos, afirmou hoje que a intervenção do Estado na Cabo Verde Airlines (CVA) é “inevitável” e será anunciada “muito brevemente”, envolvendo a restruturação da companhia, que não realiza voos comerciais desde março.

Ao intervir na Assembleia Nacional, na Praia, na primeira sessão parlamentar de outubro, num debate sobre os transportes e os seus impactos no desenvolvimento do país, agendado pela oposição e visando especialmente a CVA – que resultou da venda de 51% do capital social da TACV -, o governante garantiu que a “companhia vai continuar”.

“Nós vamos continuar a apostar na TACV, que esta companhia deve recentrar os seus objetivos no curto prazo, olhar para a diáspora e para o turismo, que deve redimensionar a empresa, sim”, afirmou, depois de várias críticas e perguntas da oposição sobre o negócio envolvendo a CVA.

O ministro, que acumula as pastas dos Transportes e do Turismo, justificou que esse redimensionamento é justificado por haver “retração na procura” em todo o mundo: “Não é o Governo que está a induzir isto, mas sim esta realidade”

A CVA não realiza voos comerciais desde 18 de março, quando o arquipélago encerrou a ligações internacionais, para conter a pandemia de covid-19, por decisão do Governo. Esses voos foram retomados 12 de outubro, com a reabertura de fronteiras, mas a administração da CVA não tem ainda planos para retomar a operação, sendo conhecidas desde maio negociações com o Governo, para um apoio financeiro, ainda sem conclusão.

“Muito brevemente nós teremos um anúncio sobre a companhia Cabo Verde Airlines, com aposta do Governo. Objetivamente e obviamente que o Governo terá que intervir neste processo, tendo em conta que da noite para o dia a Cabo Verde Airlines deixou de ter vendas, mas continuou a ter custos. Inevitavelmente terá que haver uma intervenção do Estado”, afirmou o ministro Carlos Santos, recordando tratar-se de um cenário idêntico a outras companhias internacionais, intervencionadas pelos respetivos Estados.

“Vamos salvaguardar os interesses dos cabo-verdianos e dos contribuintes cabo-verdianos nesse processo negocial”, garantiu.

Em março de 2019, o Estado de Cabo Verde vendeu 51% da então empresa pública TACV (Transportes Aéreos de Cabo Verde) por 1,3 milhões de euros à Lofleidir Cabo Verde, empresa detida em 70% pela Loftleidir Icelandic EHF (grupo Icelandair, que ficou com 36% da CVA) e em 30% por empresários islandeses com experiência no setor da aviação (que assumiram os restantes 15% da quota de 51% privatizada).

O Governo concluiu este ano a venda de 10% das ações da CVA a trabalhadores e emigrantes, mas os 39% restantes, que deveriam ser alienados em bolsa, a investidores privados, vão para já ficar no domínio do Estado, decisão anunciada pelo executivo devido aos efeitos da pandemia.

Num aparente braço de ferro com a administração, islandesa, da companhia, o vice-primeiro-ministro cabo-verdiano avisou na quarta-feira, também no parlamento, que a reabertura a voos internacionais, desde 12 de outubro, foi uma “decisão soberana” e que o Governo não tinha de “consultar” ninguém, depois de o administrador da CVA a ter classificado como “súbita”.

“Nós, Governo, quando tomamos as decisões sobre a reabertura dos voos, é uma decisão soberana. Não temos de consultar ninguém. Nem de avisar ninguém”, afirmou o vice-primeiro-ministro, Olavo Correia.

“Portanto, nós tomamos uma decisão. E as empresas vão ajustar o seu plano de negócios em função da decisão tomada soberanamente pelo Estado de Cabo Verde”, avisou Olavo Correia.

A administração da CVA não tem previsão para retomar os voos comerciais, apesar da reabertura das fronteiras do arquipélago, e alegou na terça-feira que os níveis de transmissão de covid-19 no país reduzem o interesse turístico.

“É lamentável que, no mesmo dia em que é anunciada a abertura da fronteira [desde 12 de outubro], Cabo Verde atinja o maior número de casos de covid-19 jamais registados no país num dia [11 de outubro, 159 casos]. Isto irá reduzir o incentivo para os turistas escolherem Cabo Verde como destino de férias”, alertou na terça-feira o presidente do conselho de administração da CVA, Erlendur Svavarsson.

A posição consta de uma mensagem divulgada pelo administrador da companhia aérea, em que considera como “súbita” a abertura das fronteiras de Cabo Verde, mas também “um primeiro passo emocionante na longa viagem que se avizinha para revigorar a indústria do turismo e a economia nacional de Cabo Verde”.

“A companhia aérea espera ser parte integrante dessa viagem, com passos cuidadosos e medidos chegaremos ao fim desta tumultuosa expedição, ligando mais uma vez quatro continentes através do ‘hub’ das companhias aéreas na ilha do Sal”, acrescentou o administrador.

Na mesma mensagem divulgada na terça-feira, em que insiste na tónica da “inesperada reabertura das fronteiras”, Svavarsson referiu que este é “apenas o primeiro passo da longa viagem para o renascimento das viagens e do turismo e, consequentemente, da economia local em Cabo Verde”.

“Lamentavelmente, podemos também constatar que a maioria dos nossos principais mercados e segmentos e grupos de passageiros tradicionalmente servidos ainda permanecem inacessíveis, uma vez que a maioria desses passageiros se abstém de reservar voos para Cabo Verde devido às elevadas taxas de infeção, tanto a nível mundial como local”, lê-se.

O responsável referiu que a CVA “está a envidar todos os esforços” para assegurar o regresso com “operações eficientes e fiáveis com uma diferença, assim que o ambiente comercial e a situação pandémica tenham diminuído”.

Por: Lusa