Pandemia chegou a Cabo Verde há um ano mas só o próximo inverno pode trazer dias melhores

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A maioria dos hotéis cabo-verdianos permanece encerrada, um ano depois da pandemia, e os que reabriram não faturam o suficiente para os custos, admite o presidente da Câmara de Turismo, prevendo um verão fraco e um inverno melhor.

Em entrevista à Lusa a propósito da paralisação do setor do turismo desde que o primeiro caso de covid-19 foi oficialmente detetado em Cabo Verde, em 19 de março, precisamente num turista inglês hospedado num hotel da ilha da Boa Vista, Gualberto do Rosário recorda que a generalidade dos hotéis, com cerca de 20.000 camas, suportou no último ano os custos com os trabalhadores, colocados em ‘lay-off’.

“As empresas acabaram por assumir 50% dos custos laborais durante este período todo (…) Ainda temos a maior parte dos hotéis fechados, com a perda efetiva de empregos”, recordou o presidente da Câmara de Turismo de Cabo Verde, organização que representa os empresários do setor.

Além de representar 25% do Produto Interno Bruto (PIB), com um recorde de 819 mil turistas em 2019, o turismo emprega mais de 20% dos trabalhadores em Cabo Verde. Em 2020, os hotéis de Cabo Verde, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), perderam mais de 610 mil hóspedes face ao ano anterior.

“Pode-se perceber facilmente o impacto que a paralisação do setor significa em termos de mão de obra”, reconheceu.

Tal como em março de 2020, quando todo o país fechou, inclusive com a suspensão por mais de sete meses das ligações aéreas internacionais ao arquipélago, Gualberto do Rosário explicou que “a maior parte dos hotéis está fechada” atualmente em Cabo Verde, simplesmente porque as sucessivas vagas da pandemia continuam a travar as deslocações dos turistas a Cabo Verde.

“E [hotéis] com clientes, com hóspedes, são muito poucos. Não chegam para cobrir os custos de funcionamento, não é possível ainda”, afirma, reconhecendo que 2021 ainda será um “ano de dificuldades” para o setor, enquanto não chega a época forte, a partir de dezembro, com o inverno na Europa.

Com o setor em suspenso e o país a viver uma crise económica, sem as receitas do turismo, enquanto os principais mercados emissores continuam a tentar debelar a pandemia, como Portugal e o Reino Unido, as perspetivas não são animadoras para o curto prazo.

“Não espero um verão médio sequer, espero um verão fraco, mas ainda assim um verão melhor do que no ano passado”, aponta Gualberto do Rosário, esperando que a vacinação em massa contra a covid-19, que começa a acontecer na Europa e que Cabo Verde pretende iniciar esta sexta-feira, contribua para “dar segurança” aos turistas, em paralelo com a organização e preparação das empresas do setor que operam no arquipélago.

“O ano de 2021 será para resolver o problema da segurança sanitária e poderemos entrar no inverno já num contexto diferente. Pessoalmente, o que eu espero é um inverno de 2021/2022 bastante aceitável, porque no turismo não há medidas que produzam resultado imediato”, sublinha.

De acordo com os últimos dados estatísticos disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em março de 2020, antes da pandemia, Cabo Verde terminou 2019 com 284 unidades hoteleiras, tal como no ano anterior, mas o total de quartos e de trabalhadores desceu, face a 2018.

Segundo dados do inventário anual do setor do Turismo, estes estabelecimentos hoteleiros ofereceram uma capacidade de alojamento de 13.092 quartos, traduzindo-se num decréscimo de 0,7% face a 2018.

Já o número de camas aumentou 0,1%, para 21.059, enquanto o total de trabalhadores afetos oficialmente ao setor desceu 3,9%, para 9.050, face ao máximo histórico de 9.417 registado em 2018.

As residenciais representavam a maioria de unidades hoteleiras (34,5%) em Cabo Verde, seguidas de hotéis (25,7%) e pensões (27,1%), além de pousadas (3,5%), hotéis-apartamentos (7,7%) e aldeamentos turísticos (1,4%).

Por: Lusa