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Perceção de corrupção pelos cabo-verdianos voltou a aumentar em 2022

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A perceção da corrupção pelos cabo-verdianos voltou a aumentar em 2022, mas também a confiança nas instituições, segundo as primeiras conclusões do estudo “Afrobarómetro”, apresentando hoje na Praia.

“Há um dado interessante, tem a ver com a confiança nas instituições. Não obstante o facto de os cabo-verdianos entenderem que há atos de corrupção nessas instituições, os cabo-verdianos ainda continuam a confiar nas instituições, sejam elas eleitas e não eleitas”, explicou José Semedo, diretor-geral da Afrosondagem, ao apresentar as conclusões do estudo, que foca a qualidade da democracia, as condições económicas, a corrupção e a confiança nas instituições.

“Falando em não eleitas, as Forças Armadas continuam a ser a instituição em que os cabo-verdianos mais confiam”, acrescentou.

De acordo com o inquérito regular “Afrobarómetro”, apresentado na Assembleia Nacional, no último ano 47% dos inquiridos considerou que, enquanto perceção, a corrupção em Cabo Verde aumentou (49% no anterior estudo, em 2019, e 39% em 2017), enquanto 33% respondeu ter permanecido igual (25% em 2019 e 29% em 2017).

Apenas 11% respondeu que a corrupção diminuiu no último ano, quando em 2019 essa percentagem foi de 12% e em 2017 de 20%.

“Quando nós perguntamos aos cabo-verdianos como avaliam o desempenho do Governo no combate à corrupção dentro da instituição governamental nós temos cerca de 43% que avaliam negativamente o Governo nesta matéria. Estes dados têm vindo a aumentar. Desde 2011 que essa perceção da corrupção por parte da população tem vindo a aumentar e cabe às entidades públicas, todas elas, não apenas o Governo, de dar um sinal contrário à população de que realmente há combate à corrupção”, afirmou Semedo.

“Por exemplo, nós falamos da instituição que existia ou foi criada, de combate à corrupção. Mas, no entanto, nós não temos nenhum caso, pelo menos que eu saiba, mediático, de um político dos políticos que foram julgados, seja a nível local, seja central, em relação aos casos de corrupção. Então, cabe às entidades públicas dissipar essa que é a perceção que a população tem relativamente a atos de corrupção nas instituições públicas”, advogou.

O estudo “Afrobarómetro” é realizado regularmente nos países africanos e em Cabo Verde — que já realizou em 2002, 2005, 2008, 2011, 2014, 2017 e 2019 – contou com inquéritos de abrangência nacional a 1.200 pessoas com mais de 18 anos feitos de 22 de julho a 05 de agosto de 2022, uma margem de erro de 3% e um nível de confiança de 95%, segundo os dados da Afrosondagem, que o realizou.

Nos 12 meses anteriores ao inquérito 1% dos inquiridos admitiu que pagou subornos a professores ou funcionários da escola (2% em 2019), as mesmas percentagens relativamente a funcionários de centros de saúde ou hospitais, e 3% confirmou o pagamento de subornos a polícias para “evitar problemas”, contra 2% em 2019.

Em 2022, 75% dos inquiridos admitiram “risco de retaliação ou outras consequências negativas” em caso de denúncia de “incidentes de corrupção sem medo”, um aumento face aos 65% em 2019.

O estudo refere ainda que a perceção de corrupção é maior na Polícia Nacional, passou de 22% em 2019 para 27%, nos deputados à Assembleia Nacional, em que aumentou de 14% para 24%, envolvendo o primeiro-ministro ou o seu gabinete, de 14% para 22%, entre os juízes e magistrados, de 11% para 21%, mas também entre funcionários públicos, vereadores e Presidente da República e respetivo gabinete (20%).

Apesar do aumento dos indicadores de perceção de corrupção, o nível global de confiança nas instituições cabo-verdianas também aumentou de 2019 para 2022, liderado pelas Forças Armadas, de 60% para 74%, no Presidente da República (Jorge Carlos Fonseca até 2021 e José Maria Neves desde então), que subiu de 50% para 65%, nos líderes religiosos, de 53% para 54%, na Comissão Nacional de Eleições, de 41% para 61%, na Polícia Nacional, de 47% para 60%, nos tribunais, de 49% para 60%, no primeiro-ministro, de 36% para 57%, nos partidos da oposição, de 29% para 52%, e no parlamento, de 33% para 48%, entre outros.

Sobre a “performance” ao avaliar o desempenho das funções nos últimos 12 meses, apenas 47% avaliaram positivamente os deputados (34% em 2019), enquanto o primeiro-ministro foi avaliado positivamente por 60% dos inquiridos (40% em 2019), e o Presidente da República por 72% (63% em 2019).

O “Afrobarómetro” constitui uma rede de pesquisa não-partidária que realiza pesquisas de opinião pública sobre democracia, governação, condições económicas e assuntos relacionados em cerca de 37 países africanos. Foram realizadas nove séries de pesquisas entre 1999 e 2022.

Por: Lusa