Rubén Semedo: Da prisão à seleção portuguesa em 15 meses

1005

13 de julho de 2018. Depois de 142 dias detido no Centro Penitenciário de Picassent, em Valência, Rúben Semedo sai em liberdade e agarra a nova oportunidade que a vida lhe dá.

Menos de 15 meses depois, o agora defesa central do Olympiakos vê o nome na lista de convocados da Seleção Nacional. «Não é por um percalço que não se pode viver», explica Fernando Santos, o selecionador nacional.

A vida dá voltas que a própria vida desconhece. Surpresas, incógnitas, frustrações, tantas e tantas histórias por contar, para contar. A de Rúben Semedo justifica o espanto, pela capacidade do atleta em se reabilitar, quando há pouco mais de um ano parecia ter a carreira perdida. Por culpa própria. 

Os dias maus nasceram na transferência do Sporting para o Villarreal. «Achava que podia fazer o que queria, que não haveria nenhum problema. Todos os problemas que tive foram em ambientes noturnos. Numa semana saía quatro ou cinco vezes», confessa à TVI, já em julho do presente ano.

Perdições, descontrolo, uma vida desvairada e a caminhar para o abismo. O relato de Rúben impressiona. 

«Eu tinha um grupo de pessoas que conheci em Valência numa discoteca. Pensei que eram meus amigos. Algumas vezes ficavam em minha casa ou com os meus carros quando eu vinha para Portugal ver a minha família: confiava neles. Em outubro, um deles pediu-me dinheiro emprestado. E eu emprestei. Depois andou a enrolar-me três ou quatro meses e eu disse-lhe que ele andava a enganar-me. Eu disse-lhe que ou pagava ou chamava a polícia e denunciava-o. Ele tinha cadastro de burlas a outros jogadores e problemas com tráfico de drogas. Uns dias depois ele veio a minha casa para falar e tivemos uma discussão com agressões. Ele pegou numa ameaça que eu fiz e foi à polícia denunciar-me. Montou a história para ser eu o mau da fita. Depois, a polícia vai a minha casa, sou detido e aconteceram uma série de coincidências que não me ajudaram em nada.»

Este mundo atira Rúben Semedo para uma cela. A 20 de fevereiro de 2018 dá entrada no estabelecimento prisional, cada vez mais afastado dos sonhos que o levaram a titular do Sporting e a uma candidatura para o centro da defesa da Seleção Nacional. 

As noites «em lágrimas» lavam-lhe a alma, abrem-lhe o coração, indicam-lhe o caminho a seguir. Rúben aguenta, desabafa num diário que começa a escrever no espaço partilhado com mais dois condenados, um dos quais com tendências suicidas. Em julho, 142 dias depois, acaba o suplício. 

Mas o que espera Rúben cá fora?

O Rio Ave na origem da reabilitação total

A filha é a mão que puxa Rúben para o lado do Bem. As primeiras horas de liberdade são passadas com a menina, num parque de diversões. O defesa ainda não sabe, mas só terá de esperar uma semana até ser oficializado como reforço do Huesca.

Está dado o primeiro passo para o regresso ao futebol profissional e aos relvados espanhóis. Rúben impõe-se com alguma naturalidade na equipa, ainda cedido pelo Villarreal, mas os resultados do Huesca são muito maus. 11 jogos depois, em janeiro de 2019, a ligação termina. 

Nada, por esses dias, ainda indiciaria a recuperação total de Rúben Semedo. Exibições assim-assim, muita descrença por parte de quem o rodeia, avanços e recuos num processo naturalmente delicado. 

Rúben percebe que para ser feliz tem de dar um passo atrás (jogar em Portugal), para projetar os passos seguintes. E aceita o desafio do Rio Ave, também emprestado pelo Villarreal

14 jogos e dois golos às ordens do treinador Daniel Ramos, quatro meses a um nível francamente bom, a certeza de que o pior já está para trás das costas, lá longe. Rúben agradece publicamente aos vilacondenses, mas também ao Huesca, pela oportunidade dada.

«Uma época que começou de um período complicado da minha vida e que veio a terminar num dos períodos que mais desfrutei na minha carreira e na minha profissão só tenho a agradecer aos meus amigos, famílias e todas as pessoas que estiveram do meu lado. Obrigado também ao Rio Ave, por tudo, e muchas gracias ao Huesca, pela oportunidade.»

Explosão em Atenas e a Seleção como destino lógico

No final de junho, quando até se fala do interesse de emblemas grandes de Portugal, Rúben Semedo mete-se num avião e parte para Atenas. O Olympiakos chega a acordo com o Villarreal e paga 4,5 milhões pelo passe de um jogador que, meses antes, era dado como perdido para o futebol profissional.

Na Grécia, Rúben encontra o amparo de um treinador português (Pedro Martins) e de um balneário com caras conhecidas, como José Sá, Bruno Gaspar e Daniel Podence. 

Três golos na Liga dos Campeões, 11 jogos oficiais, rendimento alto e, a 3 de outubro de 2019, a recompensa maior: Rúben vê o nome na lista de convocados de Fernando Santos para os jogos contra o Luxemburgo e a Ucrânia. 

A 13 de julho de 2018, ao dar os primeiros passos fora da penitenciária de Picassent, Rúben Semedo confidenciava aos mais próximos que a Seleção Nacional não lhe saía da cabeça. Menos de 15 meses depois, com Huesca, Rio Ave e Olympiakos na história, aí está ele de quinas ao peito. 

Que Rúben não seja ingrato com o novo ciclo que a vida lhe dá. 

Por: Maisfutebol